Percepção do espectro sonoroO ouvido humano é sensível a um espectro de frequências sonoras entre os 20Hz e os 20.000Hz. Fisiologicamente, o nosso ouvido tem ainda extra-sensibilidade para as frequências entre 1000Hz e 6000Hz (zona média do espectro), região esta predominantemente presente na fala.
Já foram realizadas imensas experiências de modo a estudar e perceber a forma como o ouvido capta e processa o som. Desses estudos, resultou não só uma melhor compreensão da forma como o nosso sistema auditivo funciona, mas também imenso conhecimento com aplicações práticas na produção de música.
Um dos fenómenos auditivos interessantes, revelados pelos estudos, é a incapacidade do ouvido humano de percepcionar todas as frequências sonoras (20Hz até 20.000Hz) com igual intensidade (ou volume).
O ouvido humano revela uma maior insensibilidade na captação das frequências situadas nos extremos do espectro (as que são muito baixas e as que são muito altas). Em contrapartida, o ouvido humano revela maior sensibilidade na percepção das frequências na zona média do espectro. Na realidade, o pico da sensibilidade do ouvido humano situa-se por volta dos 3000Hz.
A fala (sistema vocal) produz frequências sonoras predominantemente na zona média do espectro, por isso não é de estranhar que a natureza tenha manipulado a sensibilidade dos nossos ouvidos desta forma.
Entender as Curvas Fletcher-Munson (ou Equal-Loudness Contours)Este estudo da sensibilidade variável do ouvido humano na percepção do espectro sonoro, teve começo com o trabalho desenvolvido nos anos 30, pelos investigadores americanos Sr. Fletcher e Sr. Munson.
Os dados recolhidos nas suas experiências permitiram a criação de um gráfico, cuja interpretação clarifica o comportamento perceptivo do ouvido humano ao longo de todo o espectro audível.
Ver aqui o gráfico:
http://en.wikipedia.org/wiki/Equal-loudness_contoursAs linhas deste gráfico chamam-se Curvas Fletcher-Munson ou Equal-Loudness Contours.
O termo 'Equal-Loudness' significa que a intensidade do som (volume), para cada uma destas curvas, mantém-se
constante ao longo de todo o espectro sonoro, representado no eixo horizontal (abcissa) do gráfico.
Porque razão existem tantas curvas no gráfico? As diferentes curvas referem-se a intensidades de som diferentes, medidas em 'phon' (a unidade de
percepção de intensidade de som). Todas as curvas são independentes, mas ambas mantêm como referência um tom (sine) de frequência 1000Hz, mas com diferentes intensidades (20phon, 40phon, 60phon, 80phon e 100phon).
No eixo vertical (ordenada) está representada a intensidade de som (volume) do tom de teste (sine tone), medido em decibéis SPL (Sound Pressure Level).
Analisando o gráfico, e escolhendo como referência a curva de intensidade 20phons, é possível verificarmos que para o ouvido percepcionar as frequências baixas e altas do espectro audível (eixo horizontal) com igual intensidade, é necessário compensar o volume do tom de teste, aumentando-o.
Em contrapartida, na audição do espectro audível na zona entre os 1000Hz e os 3000Hz nota-se uma clara necessidade em reduzir o volume do tom de teste, de modo a percepcionar as frequências do espectro com igual intensidade. Isto demonstra que o ouvido é muito mais sensível nesta zona do espectro e não precisa de elevados volumes para perceber claramente o estímulo.
As Curvas Fletcher-Munson durante a produção de músicaClaro que os produtores não precisam de relembrar o gráfico das Curvas Fletcher-Munson para produzir a sua música.
Contudo, perceber como estas curvas afectam o nosso ambiente de produção é de alguma forma importante!
As frequências graves e as colunas monitorasSegundo as curvas Fletcher-Munson, a percepção das frequências graves exige volumes de reprodução mais elevados, comparando com os volumes de reprodução necessários para o resto do espectro.
Sabendo da existência deste fenómeno, torna-se então importante para o produtor aumentar o volume de reprodução em momentos estratégicos da produção, de modo a tornar possível uma percepção e avaliação correcta das frequências graves e do seu balanço em relação ao resto do espectro.
Uma correcta avaliação do som produzido, depende deste hábito de aumentar o volume de reprodução das colunas monitoras, nos momentos críticos.
As frequências graves e os auscultadoresO uso de auscultadores durante o mixdown (misturas) pode revelar-se inapropriado, especialmente quando se usam auscultadores não preparados para essa tarefa.
Os auscultadores não profissionais têm geralmente uma má 'frequency response' na zona grave do espectro, e não reproduzem de forma correcta as frequências graves, criando ainda mais problemas de monição.
Torna-se uma tentação para o produtor que está a misturar com auscultadores não adequados, aumentar o volume dos graves (através de equalização), de modo a compensar a sua fraca percepção. Isto resulta em misturas com elevado conteúdo grave, claramente audível quando reproduzido novamente em colunas monitoras.
Entretanto, o uso de auscultadores pode ser de grande utilidade para avaliar o panning/localização dos elementos da mistura no campo stereo, avaliação essa que as monitoras podem não oferecer com detalhe, especialmente se estiverem mal posicionadas durante a produção.
Existe um website que vos permite realizar um teste auditivo e determinar a 'frequency response' dos vossos ouvidos. E este é mais um excelente recurso para perceber as curvas Fletcher-Munson!
É este o link:
http://www.phys.unsw.edu.au/jw/hearing.htmlAtenção!!! Baixem o volume das vossas colunas quando acederem a esta página.
Para a protecção dos vossos ouvidos, não cliquem na imagem (gráfico) sem antes ler as instruções.
Boas produções

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